Home / Blog / Novo filme sobre as aventuras de órfãos deficientes auditivos

Novo filme sobre as aventuras de órfãos deficientes auditivos

Uma cena recorrente se repetiu nos bastidores de “Sem fôlego”, o novo filme do americano Todd Haynes, que chegou nesta quinta-feira ao circuito brasileiro. De tempos em tempos, algum figurão da Amazon Studios deixava escapar a dúvida, entre o intrigado e o ansioso: “Acha mesmo que isso é uma história para crianças?”. Os executivos demonstravam receio diante da perspectiva de terem deixado uma conto de fadas moderno e estranho, protagonizado por órfãos separados 50 anos no tempo, nas mãos de um diretor conhecido por confrontar gostos e comportamentos puritanos.

— Sempre rebatia com a mesma resposta: “Claro que é! É um material inocente, carregado de encantamento e imaginação, apropriado para os pequenos” — conta o diretor, de 56 anos. — E eu, que andava querendo fazer um filme para esse público, cá com os meus botões, estava consciente de estar preparando algo especial, estranho e único. Durante a montagem, assisti aos loucos filmes do Nicolas Roeg, porque era uma história sobre a manipulação do tempo. Brincávamos que estávamos fazendo uma viagem de ácido para crianças. (risos)

A trama de “Sem fôlego” se passa em duas décadas distintas, cujas histórias são contadas em paralelo, e de forma alternada. Em 1927, a pequena Rose (Millicent Simmonds), surda de nascença, foge da mansão do pai tirano, em Nova Jersey, para fazer contato com uma estrela do cinema mudo, em cartaz numa peça em Nova York. Cinco décadas adiante, Ben (Oakes Fegley), menino de Minnesota que acaba de perder a mãe e ficar surdo após um acidente bizarro, escapole para Manhattan, carregando pistas que o levarão ao pai que nunca conheceu.

Deficiente auditiva na vida real, a estreante Millecent foi escolhida após testes com 200 outras crianças. A jovem tinha já alguma experiência com teatro — participou de uma peça de Shakespeare em que os diálogos eram falados com a linguagem de sinais.

— Toda criança surda se expressa de forma diferente, assim como nós que usamos as palavras. É possível identificar um sotaque e até uma personalidade em cada uma delas, talvez até mais facilmente do que na fala verbal, porque eles usam o corpo inteiro para se comunicar — explica Haynes. — Mas essa característica impõe um problema: os surdos-mudos podem ser muito próximos do exagero, como os atores do cinema silencioso. Mille, no entanto, permite que o espectador preencha os espaços em branco, que é o que se espera de um filme.

O longa é adaptação do livro homônimo de Brian Selznick, escritor voltado para o público infanto-juvenil e autor de “A invenção de Hugo Cabret”, levado para as telas em 2011 por Martin Scorsese. Com “Sem fôlego”, Haynes chega ao terreno familiar dos elaborados dramas de época, que lhe valeram prêmios e prestígio, como “Velvet Godmine” (1998) e “Carol” (2015). O livro de Selznick, neto do produtor do clássico “… E o vento levou”, acaba de ser lançado no Brasil pela Edições SM.

— O que me faz querer voltar ao passado é a banalidade, além da frustração do presente. Aliás, posso dizer coisas muito piores em relação à atual realidade dos Estados Unidos — graceja o diretor, conhecido pela meticulosidade da reconstituição das épocas que retrata em seus filmes. — Mas, como amante do cinema e estudioso de sua história que me considero, fazer esse tipo de filme representa mais uma oportunidade de aprender e de me aprofundar em diversas fases da evolução dessa arte.

Haynes devolve o que aprendeu com a deferência de um aluno aplicado. As narrativas de “Sem fôlego” emulam as características e estilo do cinema feito no período que descrevem. A história de Rose é contada em preto e branco, com cartelas ilustrando diálogos, como nos filmes da era muda; a de Ben ganha as cores e a vibração da trilha sonora dos anos 1970, sublinhada pelo granulado da película. Parte da ação se passa nos corredores do Museu de História Natural de Nova York, entre dioramas de diferentes ecossistemas, e do Museu do Queens, em torno da gigantesca maquete de Manhattan.

— De certa forma, fazer “Sem fôlego” foi como voltar aos primórdios da minha carreira, quando fiz “Superstar: The Karen Carpenter story” (1988), usando bonecas da Barbie e do Ken e maquetes para dramatizar a triste história da cantora Karen Carpenter, que morreu de anorexia aos 32 anos de idade — conta Haynes, com um sorriso maroto. — O filme continua interditado para exploração comercial, por causa de Richard, irmão de Karen.

Fonte: O Globo (Carlos Helí de Almeida).

Sobre admsilvio

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *